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Conhecido como “o português” do centro de Curitiba, imigrante revela que pretende se aposentar das panelas em breve

Um prato feito servido há 47 anos quase provocou uma revolta recentemente no centro de Curitiba. O anúncio de que seu criador se afastaria do negócio levou clientes às lágrimas e questionamentos: o que estaria acontecendo com o português? Será que ele está doente? Cansado?

Português é o apelido de Manoel Silvio de Barros, um senhor de 78 anos que fugiu da Ilha da Madeira (território lusitano na costa atlântica da África) durante a ditadura Salazarista em 1953, e se estabeleceu no Brasil com a família quando tinha apenas 12 anos de idade. Foram 11 anos morando em Santos antes de mudar para Curitiba. Na capital paranaense, trabalhou como entregador de mercadorias até abrir um bar com um dos irmãos, em 1964.

A sociedade não deu muito certo e, em 1972, Silvio abriu o restaurante Beija Flor, no Centro Histórico da cidade. Servindo desde o café da manhã até o jantar, ele criou uma clientela cativa com seus pratos feitos, salgados, porções e um dedo de prosa na beira do balcão como “todo madeirense sabe”.

Silvou contou ao Bom Gourmet que o boato de que se afastaria do restaurante é real, mas não por estar cansado de trabalhar. Apesar de ainda ter fôlego para tocar as panelas, ele decidiu vender o Beija Flor por medo de um dia ficar doente e precisar ficar longe dos negócios.

“Imagina se algo acontece comigo e eu não consigo vir pra cá abrir o restaurante. Tem os funcionários, mas eu que faço tudo, controlo tudo, a contabilidade, converso com os clientes, tudo. Ainda posso fazer muita coisa, mas a gente nunca sabe”, disse. Entre as atribuições dele está a de fazer as compras – tudo de cabeça – e preparar o bolinho de bacalhau tradicional da Ilha da Madeira, uma receita secreta que não vai ovo e nem farinha.

Crises

Os pratos feitos preparados pelo ‘português’ continuarão sendo servidos depois que ele se afastar do Restaurante Beija Flor. Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo.

O medo de algo acontecer é reflexo do movimento que conquistou em quase cinco décadas. Servindo exatamente o mesmo cardápio desde que abriu as portas, Silvio conta que viu muita gente fechar ao redor ou mudar o serviço para o formato de buffet. Mas, ele não.

“Eu acho que quando a gente faz bem feito e por um preço justo, as pessoas vêm e voltam mais vezes. Os meus pratos são os mesmos desde que abri, nunca mudei e nem diminuí o tamanho, independente da situação da economia. Então tem ‘os do dia’ com frango grelhado, alcatra ou bisteca (R$ 15), e o prato feito com arroz, feijão, farofa, batata-frita, ovo e carne (R$ 14). Os meus fornecedores também são praticamente os mesmos desde sempre. Aí eu vejo o pessoal aqui próximo que muda cardápio, faz buffet, e fecha, e eu aqui sirvo a mesma coisa desde sempre”, analisa o senhor apontando para o cardápio. Diariamente são mais de 100 almoços servidos, e o salão chega a ficar lotado dependendo do horário.


Novas caras

Foi no começo do ano passado que Silvio começou a dar os primeiros sinais de que poderia passar o restaurante para frente, e um dos clientes se interessou pela proposta. O empresário Everaldo dos Santos comentou com um amigo dono de diversos brechós na região que o Beija Flor poderia ser colocado à venda. Junto de Reginaldo Franco de Carvalho, começaram a conversar com o português.

“A gente ficou praticamente um ano e meio nesse ‘namoro’ com o Silvio, até que assinamos o contrato em meados de novembro do ano passado e vamos assumir oficialmente o restaurante neste início de junho. No começo, não imaginávamos o tamanho da relevância que ele tinha, e hoje vemos que vai ser um desafio tocar o legado dele para frente”, explicaram os novos donos do Beija Flor.

Everaldo conta que muitos clientes antigos do restaurante chegam questionando se algo vai mudar, o que eles pretendem fazer, se o Silvio vai deixar o balcão. Mas, não. Ele nega que vai mudar muita coisa.

“A começar por Silvio, se ele quiser continuar vindo aqui, pode vir. O deixaremos bem à vontade. E o restaurante fica como está, com o mesmo cardápio, o mesmo ambiente, nada muda. Exceto por uma modernização dos equipamentos, principalmente na cozinha, uma revitalização do salão, dos móveis, a apresentação dos pratos, mas a essência é a mesma”, completa.

Junto dos dois novos sócios está o chef curitibano Sérgio Eter Garai, que vai cuidar para que os pratos continuem seguindo as receitas criadas por Silvio, e melhoradas no que for possível.

De volta à terrinha

A previsão é de que Silvio continue no atendimento do Beija Flor até dezembro, “ou o quanto ele quiser”, conta Everaldo. Mas, uma coisa é certa: o português quer voltar à sua terra natal.

“Nunca mais voltei para a Madeira, não tive tempo e nem dinheiro nesses anos todos. Vamos ver agora, depois do restaurante”, finaliza.

Emocionado, o português conta que, quando for embora, só vai levar boas lembranças dos amigos que conquistou, dos sorrisos e do carinho de quem passou por ali.

Serviço
Restaurante Beija Flor

Rua Paula Gomes, 170, Centro – Curitiba

Aberto de segunda a sábado, das 7h30 às 22h

Telefone: (41) 3232-5181

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/bomgourmet/com-casa-cheia-restaurante-serve-o-mesmo-prato-feito-ha-47-anos/?fbclid=IwAR2VcqtYztFWpmwxQKNPR06cxiqv84IGN64RxQQiTW7SR5zhL7PIg5n_o-w

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