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Tão certo quanto o fato de que a pandemia do coronavírus um dia chegará ao fim – ainda que não saibamos quando – é a conclusão de que, passado esse período, o mundo não será mais o mesmo. São muitas mudanças já em curso que fazem com que, paralelamente ao enfrentamento das dificuldades desse período, se olhe mais adiante e sejam pensadas soluções para o futuro. A economia, os negócios, as relações pessoais, de trabalho, o comportamento da sociedade, tudo está passando, de alguma maneira, por um processo de transformação.

Em Curitiba, uma iniciativa para pensar como essas mudanças irão afetar a cidade foi lançada pelo Instituto Sivis, organização sem fins lucrativos, em parceria com o Programa Cidade Modelo. O trabalho consistiu, primeiramente, em realizar uma pesquisa junto aos curitibanos sobre as impressões atuais e as perspectivas para depois da pandemia. A partir dos resultados dessa consulta, o instituto irá apresentar possíveis cenários para um futuro próximo e propor ações que venham contribuir na melhoria desses cenários.

A iniciativa é parte do trabalho realizado pelo Cidade da Gente, um coletivo que reúne 15 organizações com o objetivo de encontrar caminhos e soluções para o fortalecimento da cultura democrática em Curitiba. “Entendemos que é necessário preparar a cidade para o que vem aí, mitigando os efeitos negativos principalmente sobre a população mais vulnerável. Nisso, pensamos que uma pesquisa poderia contribuir para a construção de cenários futuros e estimular as lideranças a construir um futuro mais participativo”, explica Jamil Assis, gerente de Relações Institucionais do Instituto Sivis e diretor do Programa Cidade Modelo.

O trabalho foi dividido em três etapas. Na primeira delas, foram realizadas entrevistas com líderes comunitários e pessoas que vivem na periferia de Curitiba, abordando as principais preocupações com o pós-pandemia. Na sequência, foi feita uma pesquisa com mais de 520 pessoas de todas as regiões da capital, na qual elas responderam a um questionário com a mesma temática. Essa etapa foi concluída na semana passada e apresenta um panorama de como os curitibanos veem as mudanças causadas pelo coronavírus.

Preocupação com a economia

Os números do levantamento indicam que a preocupação maior no período pós-pandemia é com a situação econômica. Para 70,8% dos entrevistados, o maior problema causado pela pandemia é o desemprego ou a falta de renda. Além disso, 84,4% acham improvável ou pouco provável que haja aumento das vagas de emprego nos próximos meses; por fim, 76,1% acham muito provável ou apenas provável que haja piora da economia. “O desemprego é visto, de forma generalizada, como o principal problema, mas tende a ser mais relatado por quem tem menor escolaridade”, aponta Thaise Kemer, gerente de impacto e pesquisa do Instituto Sivis.

Os entrevistados também se mostraram preocupados com a estrutura do sistema de saúde, visto que 83,2% disseram considerar “muito provável” ou “algo provável” um colapso no sistema decorrente da epidemia. Além disso, 65,8% disseram estar com medo (seja muito ou um pouco) de que eles mesmos ou seus parentes adoeçam e sofram muito por causa da Covid-19. Já 71% estão com medo de que eles mesmos ou seus entes queridos sofram por conta de uma recessão econômica após a pandemia.

Outro dado que chama a atenção, na avaliação de Jamil Assis, é a percepção do que tem sido feito pelo poder público e pela comunidade. Mais da metade dos entrevistados (51,6%) diz ter notado iniciativas dos próprios moradores locais para amenizar os efeitos da pandemia, enquanto apenas 9,3% disseram ter presenciado assistência do governo estadual, 15,1% da prefeitura e 18,2% do governo federal. “Pode ser uma falha de comunicação do poder público, mas a solidariedade do vizinho parece ter mais impacto do que a ação dos governantes”, observa Jamil.

O Instituto Sivis também perguntou aos curitibanos qual seria o melhor cenário para a população. Para 34,9%, a cura da Covid-19 seria o mais desejável, enquanto 29,5% citaram a redução no número de casos e, consequentemente, o fim do isolamento social, e 22,3% disseram desejar o aumento nas vagas de emprego. “Mais impactados pelo desemprego, os menos escolarizados tendem a ver a diminuição do número de casos e, consequentemente, o fim do isolamento social como cenário mais desejável, enquanto a cura para a Covid-19 aparece como o cenário mais desejável para os mais escolarizados”, explica Thaise. A preocupação também oscila com a faixa etária: os mais velhos tendem a ver o desemprego como maior problema da pandemia, enquanto entre os mais jovens prevalece a preocupação com a saúde mental.

Três cenários e ações possíveis

Com a conclusão das entrevistas e da pesquisa, o instituto trabalha agora na projeção dos cenários após a pandemia. Jamil explica que são três situações vislumbradas: “farinha pouca, meu pirão primeiro”, quando o individualismo será acentuado e a desigualdade social irá aumentar; “japona”, na qual a solidariedade será como a vestimenta típica do inverno curitibano, usada para resolver uma necessidade pontual e depois guardada novamente; e “gralha azul”, a ave-símbolo do Paraná que enterra as sementes que dão origem às araucárias. Foi a simbologia encontrada para ilustrar que o período de crise servirá para semear um futuro melhor.

Nessa terceira e última etapa, serão realizadas experiências com grupos focais, compostos por líderes comunitários, representantes de órgãos públicos e jornalistas, que vão analisar os possíveis cenários e traçar ações. “Nosso objetivo é construir uma nova cidade, mais justa e sustentável, tendo a solidariedade como pano de fundo. Ao trabalhar com dados e possíveis cenários, é possível fazer com que setores chave tenham um direcionamento melhor e consigam estabelecer planos mais concretos”, observa Jamil. Essas ações deverão compreender campos como os da educação, formulação de políticas públicas e organização de movimentos sociais.

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