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Considerado por entidades do setor como o “pior ano da história”, 2020 ficou para trás sem deixar saudades a nenhum dono de bar, lanchonete, restaurante e afins. Mas, a esteira dos impactos e legados dele ainda vai longe neste 2021 que tem algumas certezas e muitas dúvidas.

Que a vacinação virá já é certo, mas quantas pessoas ela vai atingir ainda é um mistério. E isso vai se refletir diretamente no comportamento dos clientes que já voltaram às ruas no final do ano passado e compensaram boa parte do faturamento perdido ao longo da pandemia. Os números de dezembro e de 2020 como um todo ainda não estão fechados, mas a expectativa era encerrar o ano com 87% de recuperação se comparado a 2019.

No entanto, os recentes decretos de fechamento do comércio em diversas cidades brasileiras em plena temporada de verão podem frustrar as projeções de recuperação, tanto que mais da metade dos empresários não consegue enxergar como será a retomada neste ano. Especialistas já preveem que estas primeiras semanas de janeiro terão um crescimento considerável no número de casos de pessoas que foram às ruas sem cuidados nas festas de fim de ano.

Para Fernando Blower, diretor-executivo da Associação Nacional de Restaurantes (ANR), a recuperação completa do setor só será vista mesmo em 2022. Até lá, os empresários vão ter de conviver com muitas incertezas e resiliência ao que acontecerá nas próximas semanas.

“Nós temos duas condicionantes daqui para frente: a velocidade da vacina, que é um vetor positivo, e o aumento das restrições pelo país, um vetor negativo importante para o setor, como em São Paulo, por exemplo. Isso inviabiliza a retomada”, disse.

Na última quinta-feira (31), o governador João Dória prorrogou a quarentena até o dia 7 de fevereiro e impôs bandeira vermelha de restrições até este domingo (3). A capital paulista voltou à fase amarela nesta segunda (4), mas de olho no aumento do número de casos.

O mesmo aconteceu em Curitiba no último dia 17 de dezembro, quando a prefeitura prorrogou as restrições de funcionamento de restaurantes até 10 de janeiro, como o fechamento às 22h e a quarentena aos domingos.

Desafios

A projeção de Fernando Blower sobre a recuperação completa dos restaurantes brasileiros é a mesma de um levantamento recente divulgado pela consultoria internacional de negócios Euromonitor. Em um apanhado de todos os países afetados pela pandemia, a empresa aponta que o Brasil não verá uma recuperação dos setores atingidos pela Covid-19 – como o de serviços, por exemplo – antes de 2022, e que muito pode acontecer com a segunda onda da doença.

Além da sombra do avanço da segunda onda da pandemia no Brasil e das incertezas de quantas pessoas serão vacinadas, os empresários do setor também tem mais um agravante no desafio de se manterem em pé em 2022: o fim do auxílio emergencial e do programa de redução de salário e suspensão dos contratos de trabalho, que terminou no último dia 31.

Isso porque parte da boa recuperação do setor nos últimos meses se deveu à manutenção dos empregos e da renda, mas que agora fica em cheque com o fim dos benefícios. Se não houver nenhuma prorrogação, os atuais contratos de trabalho voltam a valer conforme as regras estabelecidas pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), com estabilidade pelo mesmo período em que foram suspensos ou tiveram os salários reduzidos – e será preciso ter caixa para pagar os salários.

“É preciso repensar isso, um fomento ao setor, Refis (refinanciamento de tributos), prazos dilatados, isenção de multas e juros, porque senão o empresário não vai conseguir se recolocar no mercado nunca mais”, comenta Blower. A entidade negocia com o governo federal para manter o programa de manutenção e renda e evitar uma demissão em massa no setor.

A última pesquisa setorial apontou que quatro em cada dez bares e restaurantes do país já fecharam as portas definitivamente por causa da pandemia, com pelo menos 1 milhão de desempregados entre formais e informais.


Asfixia de caixa

Com isso, o setor terá encolhido em torno de 1/3 do que era em 2019 segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentação (ABIA) com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e projeções da consultoria Food Consulting. O mercado de food service prevê que a queda de 2020 será de 32%, número ainda não consolidado.

“E é importante destacar que vamos levar longe os protocolos de operação, é uma realidade do mercado que vamos viver com uma asfixia de caixa e recursos, além da desconfiança do consumidor”, frisa Sérgio Molinari, CEO da consultoria.

Este contingente menor de empreendedores terá o desafio de se manter em pé no mercado ainda mais adverso, mas também a vantagem de operar com uma concorrência um pouco menor de operadores. Para Molinari, quem conseguiu sobreviver até agora vai encontrar mais clientes ávidos para voltarem a consumir, mesmo com uma renda menor.

“Quem se mantiver no mercado de forma saudável e ativa, e que se reinventou, vai abocanhar uma fatia do bolo até maior do que já tinha”, analisa.

A análise confere com o projetado pela Associação Nacional de Restaurantes (ANR) em uma pesquisa setorial desenvolvida com a Galunion Consultoria em novembro, de que os empresários que continuaram abertos passaram a repensar a própria presença no mercado.

Para 41% dos entrevistados, firmar novas parcerias de negócios e investidores é um caminho a ser tomado para permanecer no mercado; 37% investiram em novos formatos e canais como dark kitchen, cloud kitchen, varejo, etc; 23% criaram marcas próprias e 22% continuam em busca de financiamento ou investidores sem abrir mão de controlar o negócio. Apenas 22% afirmaram o desejo de vender a operação.

“Ou seja, há uma saída, mas não podemos seguir com tantas incertezas como vêm ocorrendo”, finaliza o diretor-executivo da ANR.
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